DiaCrónicas - ser no feminino

o mar em foz de rio .o mar .não havia resistido à necessidade de reencontrar o mar .como sempre lhe acontecia sem saber porquê .havia dias em que acordava e precisava de estar junto ao mar .do mar que constituía o seu ponto de partida e chegada .costumava sentar.se na rocha e ficar a olhar o mar .o infinito era o limite dos seus pensamentos .olhava o céu e redescobria.se em azul .o mar ,então ,devolvia.lhe imagens de calmaria .inventava a partida e o mar respondia.lhe em chegada

recolhia.se ao silêncio .a única voz era a do batimento do coração em ritmo pendular com o rebentar da onda .o céu escurecia .volvia o coração em mar e este respondia.lhe em batimento de rocha .elevava a imaginação e o mar estendia.lhe uma nova onda .era a linguagem dos amantes perfeitos .tudo era uma questão de tempo .das marés .dos amores .da praia.mar e dos desamores .estendia a mão e recolhia uma pedra ,pequena ,a primeira que sentia sob os dedos .atirava.a ,depois outra ,em ritmo de canto ,contra a espuma do mar .este abria.se descobrindo.a em onda que chega e afasta

imóvel .o branco da espuma contraposto ao cinzento da nuvem .tentava preencher.se com as palavras que queria escritas no mar .eram palavras irreverentes .reinventadas na onda seguinte e ,na seguinte ,remetidas ao silêncio .nunca tinha percebido que o silêncio não tinha a ver com os outros mas consigo .ela era o silêncio

sentia.se mar dentro .havia descido até ao ponto de encontro .a água passara a ser mais um elemento que precisava .como o ar .respirou fundo .deitou a cabeça para trás e fechou os olhos .o mar deixou de estar à sua frente .estava dentro dela .saltava.lhe das mãos para os braços ,destes para a barriga ,da barriga para as pernas e quedava.se nos pés .havia sido preciso estabelecer aquele caudal para se sentir de novo .era o princípio do nada .a certeza absoluta que tudo se iniciava e terminava ali .dentro dela .tudo se havia transformado em água .o oceano imenso

pensar no feminino .estar no feminino .ser o feminino ao alcance da mão .da sua mão .havia tecido uma rota ,agora ao inverso .os rios correm para o mar .ela corria do mar para o rio .o mar constituía o seu porto de abrigo .o rio uma outra aventura .iria vivê.la .sabia.o .sabia.se ao olhar ,de novo ,para dentro .afinal ,o que havia dentro de si? uma confusão de veias e artérias que conduziam a nenhures .também não queria sair dali .voltaria uma outra vez .e outra .e ainda outra .o apelo era o mesmo .o irreversível desejo de partir e de ficar .ligada ao braço de mar que ainda não era rio .ou ao rio que ainda não se chamava mar .estava ,pela primeira vez ,serena .há tanto tempo que não se sentia assim .sem importância .tudo passava a relativo

sentiu um desejo irresistível de ser .o sorriso do outro .a gargalhada do outro .o rio do outro .e ,pela primeira vez ,correu .não havia limite para o seu corre.corre .descalça .era assim que se queria .descalça .sabia.se .a respirar mar .a viver rio .a ser rio .e riu .riu .rio

DiaCrónicas - robots de mim

hoje acordei com uma vontade desesperada de escrever .levantei.me cedo .olhei o espelho e descobri.me com cara de texto .em branco .sentei.me com uma chávena de café ao lado do computador .liguei.o .as ideias entraram em turbilhão .as palavras amarraram.se como comandantes da escrita ... a casa está em silêncio .bocejo entregue aos sonhos e pesadelos que visitaram as flores da minha memória . estou descalça .sinto os pés acompanharem o chão da casa inventada por mim .desconheço.me .assim como desconheço as razões da minha razão .começo o jogo

quero.me entre as fendas da parede como se as palavras preenchessem esta solidão redonda e animal que tenta exprimir.se .chega ou desaparece quando tento visioná.la no écran .a sua presença retira.se quase em sucedâneo para uma ausência inexplicável .qual o sentido que tento? questiono.me se acaso há sentido ou se procuro algum sentido naquilo que escrevo .porque tudo tem de obedecer a uma ordem .cósmica .a norma da língua .nada deixado ao acaso .a previsibilidade como palavra principal .é aqui que começo .o princípio lógico .mas desde quando há lógica nos pensamentos que encontro dentro da minha cabeça? deixo.os soltos .apercebo.me que existo porque sinto .porque me emociono .não porque penso .esse foi o enorme erro de Descartes .deixo.o no seu tempo .caminho para um outro tempo em que as emoções coordenam o tecnicismo do meu pensamento .sou muito mais damasiana do que cartesiana .sou ... o quê? esta sensação fria de que algo não está bem .apercebo.me que me dói o dedo com que martelo as teclas .percepciono a dor

esta passa a ser a relação que me prende à palavra .à escrita .mas afinal porque escrevo? porque me dói o dedo .apercebo.me da relação que existe entre a dor e o existir .entro mais uma vez no sistema quaternário da minha mente .recapitulo que nem o existencialismo humanista de Sartre ( na esteira de Hegel ) pode imaginar a dor fora do sujeito mas sim na sua génese .é a sua consciência absoluta . mais uma vez as palavras comandam.me .disserto através de sistemas filosóficos como se fosse essa a minha necessidade de comunicar . faço marcha atrás .agora sou eu a comandar as palavras .um enorme écran branco projecta.se na minha frente .garatujo a ininteligência do ser como se tal fosse possível .o vazio .a ausência do pensamento . da emoção .uma branca

levanto.me .coloco a chávena de café no lava.loiça .espreguiço.me .verifico que até este movimento é telecomandado .nada existe sem mim .nada existe para além de mim .a realidade que vislumbro é uma criação minha .tenho olhos castanhos .vejo as coisas em tons de castanho .negativo .a cor da minha íris nada tem a ver com o cristalino .disserto sobre o facto da minha realidade ser diferente da dos outros .ninguém vive a mesma realidade mas em mundos paralelos .para quê a discussão ?nunca chegaremos ao lugar comum porque este não existe .não existe .ponto final

saio .apercebo.me que os meus passos são diferentes do homem que atravessa a rua em sentido contrário .sei que sou um narrador singular .um beijo ou uma carícia são projecções de mim .existem porque eu existo .porque os tenho dentro de mim

delírio absoluto do absoluto irreversível da vida .as flores não são flores .são projecções de imagens .mas imagens de quê? de flores .como funciona a minha mente como espelho reflector? nada existe no nada .apenas o nada .como se constrói então a ideia da flor? essência/projectada ou ser/existência? ela existe .a flor .daí as suas variedades .as espécies .regresso ao ponto zero .verifico que tudo gravita à minha volta .eu sou o centro do meu mundo .irreal ou não a realidade existe fora de mim .dentro de mim apenas projecções do real .o écran preenche.se de palavras amontoadas sem sentido .dou.lhes uma ordem .elas rodopiam .colocam.se no sentido preciso .afinal não são as palavras que me comandam .são robots de mim ... e nunca será de outra maneira

DiaCrónicas - algumas reflexões Sobr'Arte


ouso questionar -
-ainda vale a pena correr riscos?
-o que leva um criador a criar?
não sei .à minha volta há uma miríade de pequenos umbigos que não sabem não querem ou não ousam crescer....
...porque crescer exige um estar mais além
e quem atinge esse estado de quase perfeição?

todas estas dúvidas acentuam.se quando tomamos consciência de que o risco é tão necessário quanto a transgressão .o nosso limite passa a ser a aproximação aos outros desafiando os que se quedam estáticos na apreciação de si mesmos .toda a mudança exige riscos .não assumi.los ,porém ,acarreta um vazio ainda maior tornando.nos vulneráveis à dor .urge passar ao patamar seguinte -crescer .crescer ,no entanto ,exige introspecção obrigando.nos a tomar consciência de algo temeroso .nós .esse debruçar sobre nós conduz.nos a um nível de maturidade assustadora ao provocar um fortíssimo abanão no pequeno mundo que nos rodeia .tornamo.nos intransigentes .torna.se necessário não só quebrar tabus como viver no limite que o conhecimento impõe .o desconhecido passa a ser parte integrante de novo saber e ocupa o lugar do velho ,apesar da resistência ,sem que o mesmo se aperceba do seu esgotamento .basta.se num momento de tempo .esgota.se enquanto período de conflito .o criador – sempre mais à frente - tem.se na fruição e na descoberta .sabe.se uma milésima parte do consciente .senhor da ruptura e da construção .crítico do aparente e do real
pronto a quebrar tabus.

após todas estas reflexões e face à inépcia ,a pergunta inicial retoma uma importância maior

- ainda vale a pena correr riscos?

deixo.a no ar para que cada um, em consciência ,responda.

DiaCrónicas - day after // verdade ou consequência

reservou.se para o fim ,para as palavras finais que sabia de cor .sentia o gosto de desconhecer a fronteira entre o verdadeiro e o falso .mas a evidência dos factos estava ali ,nas respostas devolvidas ao remetente .assim havia sido acordado no ajuste do day after e ela não faltaria ao encontro

não .a cabeça começou a rodopiar e prefiriu.se em outra pele .passou à velocidade de um quilómetro como se nada tivesse acontecido .o silêncio havia criado um abismo intransponível ,como exigência das contigências ,ou contigência de muitos equívocos .não sabia e não queria saber .do outro lado as palavras haviam.se em demasia .vazias de conteúdo ,repetidas e tão iguais....preferia o silêncio e o não falar passou a sinónimo de não haver .mas o não haver também podia ser tido como desinteresse .então? nada .deixou ,simplesmente ,o carro rolar ao acaso ,certa de que haveria de chegar a algures
jamais a repetição de um logro

o relógio recordava.lhe o tempo ,sem tempo ,que havia encontrado para sua usufruição e ,porque se sabia sem tempo ,protelaria o compromisso assumido algures .se ,por um lado ,não gostava de faltar a compromissos ,muito menos gostava de ser usada ou manipulada .a utilização deixava.a profundamente incomodada e sabia.se contra toda a espécie de imposições .às vezes ,tentava desculpar ,mas no day after ,o cansaço invadia.a ,de tal modo ,que deixava de se interessar .passava a vogar ao inverso dos ponteiros do relógio ,engolindo em seco todas as patranhas inventadas e repetindo ,para si mesma ,as palavras da poeta - "perdoa.lhes ,pai ,porque sabem o que fazem" .
o relógio deixaria de marcar as horas

olhava.se para lá do que a esperava .voltava a mergulhar no silêncio quando ,pela janela ,vigiava o invisível .era preciso não pensar ,sobretudo ,agora que se sabia sem pena alguma de não ter acreditado e de se saber feliz .não devia .mas sabia.se .sabia.se igual nos seus silêncios .começava a saber guardar.se. a não se comprometer no compromisso assumido com os seus pares e ímpares e essa salutar vivência deixava.a ,agora ,muito mais segura
viajara no limite e preparara.se para o golpe final com direito ao risco.
havia de arriscar.se

na sublimação .na catarse .era apenas uma questão de tempo .querer é poder .um pouco mais tarde .uma questão de tempo .tempo era coisa que não lhe faltava e paciência muito menos .havia.se habituado a saber esperar .a digerir tudo frio .com indiferença ,mesmo quando ,no primeiro impulso ,a vontade era de agir .aprendera a parar .não importava por quanto tempo .muito menos como .sabia.se na procura da verdade e do absoluto .tudo o mais era voragem .aprenderia a pintar .porque não? se havia aprendido a esperar .se havia aprendido a não ter .se havia aprendido a não ser .também havia de aprender o gosto em estar nas tintas.

tudo seria uma questão de passagem pelo tempo de ser
verdade ou consequência

ano VII - triplo bluff

para certos intelectuais de direita ,a minha escrita é uma porcaria surrealista e eu sou um "animal" racional de mau feitio e muitíssimo mal educado - não respondo a provocações .não discuto
para alguns intelectuais de centro.esquerda ,a minha escrita é criativa ,mas não percebem porque fujo aos padrões da NORMA .sorriem de um modo displicente .admiram.me e são obrigados a tolerar.me
para os intelectuais de esquerda ( primus inter pares ) a minha escrita é forte ,amadurecida e já merecia um destaque maior .esses ,conhecem.me e sabem que sou autêntica .mas porque já não discuto ,mesmo quando me tentam ,dizem que perdi qualidades .e eu? não sei quem sou ,quando ,no caminho diário para casa ,me misturo no cimento da multidão gritante ,indiferente aos juízos de valor .acresço.me aos fins de tarde e prendo.me às imagens que ,qual filme ,em slow.motion ,decorrem na minha mente .ouso ,então ,questionar o uso abusivo e verifico o ridículo de quem utiliza quem .desfaço ,em mim ,o equívoco e prendo.me ao significante .às palavras que têm uma vivência muito própria .são aqueles minúsculos pontos de interferência que me comandam .desde sempre .fazem.no de um modo inconsciente .quando pretendo conduzi.las ou apontá.las em outra direcção ,elas brincam comigo e juntam.se a seu belo prazer .conduzem.me .sigo.as no turbilhão ora ordenado ,ora desordenado das ideias que me afluem em catadupa .não ouso interferir com os textos ,porque se o fizesse ,perderia a minha liberdade criativa e passaria a ser presa fácil dos meus impulsos .não pretendo que as minhas pulsões interiores sejam os almirantes das minhas naus .gosto de navegar à bolina .ao sabor da corrente ,sem piloto ,e não tenho problema algum em fazê.lo só ou acompanhada

não .não estou a ser 100% sincera .prefiro ,entre o navegar só ou acompanhada ,fazê.lo acompanhada .há momentos ,porém ,em que o silêncio ,sobretudo ,quando rodeada de muita gente ,me atrai sobremaneira .não consigo entender os atropelos ,por excitação de encontros ou por feitio e, por tal ,afasto.me ,por muito que isto possa incomodar terceiros .que querem? o meu fascínio pelo genuíno passou a ser muito mais forte .não pretendo acrescentar nada à verdade dos outros ,mas também não pretendo que interfiram na minha .se alguém ousa empurrar.me ,como uma mancha indecente ,em direcção contrária ,o que é difícil ,sou capaz de magoar ,mesmo com intenção .assumo ,mas uso a desculpa táctil ,no momento seguinte .páro .penso fundo e ofereço os meus lugares de paz ,qual flor invisível ,aos meus amigos

sou humana .regresso às ruas ,para voltar a sentar.me no beiral das palavras .estas nunca me magoaram ao longo da minha vida .aproveito o momento de pausa para cogitar em surdina e reparo ,com um misto de tristeza ,que os menos tolerantes ,ou não informados ,remetem sempre para outrem a causa da sua dor .passam a ser os seus ,deles ,pontos de unidade .interferem connosco, e ,ao fazê.lo ,fazem.no de um modo fácil e egoísta ,no limite ,primário ,dos seus SUPEREGOs
há muito que não pensava assim ...
faço.o ,agora ,liberta de qualquer mágoa e nesta conversa sana comigo mesma .pouco me importa saber se existo nas palavras .pouco me importa saber se sou .pouco me importa saber o SABER

( triplo bluff )

deixem.me pensar que estou feliz, apesar de presa a uma endémica infelicidade
prefiro.a .como prefiro ser comandada pelos meus textos surrealistas pretéritos imperfeitos mais do que perfeitos presentes condicionais e futuros .até mesmo incompreendidos .rasurados .a facilidade sempre me molestou .atedia.me.
desço as ruas que vou tecendo ao longo das páginas .nada me dizem as imagens encomendadas .sou uma profissional do jogo .jogo o ás de espadas e sou forçada a substituir os trunfos por outros mais autênticos ,no meu crescimento precoce .ah! já sei que não acreditam ( pouco importa .não sei se existo .não sei se sou simples criação de mim .não sei )
... prefiro.me no silêncio.

ano VII .o transgressor de mim*

curiosamente – até o início do texto constitui uma transgressão – e ao contrário dos puristas da Língua, não utilizo ,na minha escrita literária ,maiúsculas ;raramente pontuo ,e ,quando o faço ,contrario ,de propósito ,a Norma estabelecida ,mau grado as exigências a que obrigo os que me lêem.
não o faço por modas ,muito menos por modilhos ,mas por questões pessoais e estéticas ,na medida em que cada escritor tem uma forma muito peculiar e própria de brincar com as SUAS palavras. aí reside a singularidade e a diferença.
alguns que vão seguindo os meus desideratos literários “irritam.se” com – o que apelidam – as minhas modernices .mas ,meus Amigos ,os meus textos e/ou poemas nada têm a ver com modernices ,escolas ou movimentos .têm a ver ,outrossim ,com algo muito profundo que se prende com a minha forma de ser .sou ,por natureza

um transgressor de mim

escrevo com a necessidade urgente de transgredir de
ultrapassar.me para além do razoável

transgrido todas as normas consciente da transgressão

não há ventos que me estabeleçam limites
nem eu os aceito
nenhuma árvore se agita
não há cheiros
não há norte
não há pontos cardiais neste meu delírio
há apenas palavras que apodrecem no chão porque trabalhadas demais
tudo se resume ao lugar comum das horas que passam
os frutos que se comem
a água que se bebe ou se
derrama na calma de um verão anunciado
o meu mundo passou a resumir.se à asa
de uma borboleta
apenas uma asa
obliterei a segunda porque assumi.la
seria criar um outro e
hoje quero.me só na confusão de mim

uma asa é uma pessoa
duas asas são duas pessoas que se perdem e
acham numa distância equivalente ao gostar
o amor subjaz no labirinto possível de um animal sozinho que
encontra outro animal sozinho
os dois animais sozinhos estabelecem entre
si uma viagem que os conduz
inevitavel mente
para a morte
dos instintos
dos desejos
as borboletas repousam nos círculos abertos pela
água que escorre lenta pela minha face
esquerda
sou um rio rarefeito na corrente
a direita sulcada de veios e
areias queda.se no equilíbrio da borboleta de uma só asa
rio.me deste mundo insano feito
dos teus cabelos
dos teus olhos
do teu corpo
do teu esperma
das borboletas que geram poemas na areia
apago.os como um pedaço de asa
pisados pelo animal que me resta
sou por inerência o transgressor de mim
retomo.me nas árvores que volto a agitar

guardada nas palavras que beijam o sentido proibido

_______________________________________

*há muito que os leitores dos meus “Monólogos” mereciam esta explicação .dou.a, pelo respeito que me merecem ,na certeza ,porém ,de que ,apesar das vozes dissonantes ,não irei modificar a minha escrita .agradeço ,desde já ,a paciência de quem continuar comigo .aos demais ….,recomendo os muito bons textos ,crónicas e artigos do TERRA RUIVA .

ano VII - o outono

uma folha no chão .o outono chegou .não .o outono não chega nem parte .o outono é .repete.se ,todos os anos ,dentro do tempo .repete.se nas folhas vividas no tempo .há tão pouco tempo no tempo de uma folha .há tanto tempo no vento .há tempo
nas folhas de vento?
tantas perguntas por reponder e ele sem saber .tentou a marcha atrás .não entrava .precisava ,urgentemente ,de trocar de carro .o carro constituia o seu último contratempo .já lá ia o tempo em que o carro havia sido uma necessidade .como o andar a pé .há quanto tempo não se misturava na multidão que ,dia após dia ,buscava outra estação? ele não andava ,há tanto tempo ,de comboio .desde o tempo da outra senhora .nesse tempo ,ele não era ,sequer ,senhor de pensar em tempo .havia tanto tempo que ele não pensava ...
eram folhas dentro de uma pedra .secas .as folhas e a pedra estavam ,há tanto tempo ,secas no canteiro daquele jardim de outono .haviam crescido juntas .sido beijadas juntas e juntas envelhecidas .pelo sol e pelo tempo.

tempo de folhas castanhas e secas .azuis e torcidas .demais, enroladas em concha na pedra ou na pedra em concha .tanto fazia ,assim enroladas ,haviam envelhecido ao sol .as folhas e a pedra haviam atingido o limite de tempo .o tempo das folhas ,azuis ,castanhas ,amarelas .o tempo da pedra branca onde se havia

escondido .sentou.se na pedra e sacudiu as folhas .com os pés bárbaros .uma a uma .as folhas azuis ,castanhas e amarelas desfizeram.se sob os seus pés .havia chegado ,também ele ,ao limite do tempo em que havia sido

tempo de pedra em tempo de folha

ano VI - mulher

algo não estava certo .ela .sentada sobre a cama olhava a janela .a persiana corrida como ela .corrida em si .o silêncio ,dentro ,fazia gorgitar o sangue que corria feito de sonhos e dela .a janela trazia.lhe o barulho da rua .ela oferecia.lhe o silêncio em si .habituara.se às trocas quando lhe devolviam os trocos em velas ,nas igrejas do seu interior .gostava.as góticas não porque as visitasse ,antes porque acreditava que as rosáceas podiam encher.lhe a face de cor .a que não tinha
sentia.se ,porém ,tão linear
tão linear ao traço com que havia escrito a sua vida .tivera altos e baixos e os sapatos deixavam.na apertada .preferia andar descalça .pisar a areia .entrar no mar .comer as nuvens de açúcar e descobrir que ,apesar das fotografias tiradas e a tirar ,nunca saíra de si .as viagens que fizera ,haviam sido um erro .crasso .saíra ficando presa aos fantasmas que constituíam o seu olhar .o mundo .que mundo? as árvores? os montes? as casas? perspectivas ,apenas ,do seu olho interior .o que resistia .o que a segurava
o que a fazia resistir ao medo .aos seus medos .eram tantos os seus medos .todos em azul
pintados na tela que era a sua vida .nunca demonstrava que o medo fazia parte de si ,como se ao fazê.lo ficasse mais fragilizada aos outros .ao contacto que temia .envolvia.se mas sabia.se ,sempre ,no outro lado da vida .a que o pintor jamais pintaria porque não tinha modelo que lhe servisse .a anorexia retirara.a do lado modelar e deixara.a simples aparência .de gorda .a mulher gorda que Renoir havia sensualizado sobre o leito .de morte .ela era a morte .a pintura .a sua morte .renúncia ao azul e ,mais uma vez ,o medo de já não ser .de nunca ter sido .de não poder ser .o ser que era
o nascer a ser .mulher

ano VI . no princípio era o verbo

levantei.me cedo .sentei.me frente ao computador
a irresistível necessidade de escrever comandou.me .peguei na chávena de café .mas eu não bebo café!!! apercebo.me da narrativa que se articula na minha frente .não sei qual o dia da semana nem tal me interessa .pode ser sábado domingo ou segunda .percorro as ruas da cidade .qual cidade? não interessa .há pátios praias e ondas que se cruzam na minha frente. há uma narração indefinida que se define. sei.me conduzida por algo ou alguém que me leva pelas cidades ruas e pátios deitada no calor .escrevo .um qualquer dia da semana .tenho.me dentro de mim .sem querer compreendo o silêncio que me basta
……………………

o compromisso assumido com a palavra leva.a a não descurar o encontro .fá.lo sempre com a alegria do primeiro momento de partilha .sente.o tão próximo que chega a duvidar que um dia há.de partir
as conjunções baralham.no e em tempo de calmaria mergulha na água fresca em busca do retempero da alma .o corpo esse tem.no entregue à dama de companhia da avó .busca o conforto no mergulho e no perigo que o espreitam na velha cachoeira .jovem havia conhecido o canto .da água que desce e multiplica.se nas irmãs gotas que constituem o lago
é na margem desse escondido lugar que ela deixa a roupa e nua mergulha .sente a água percorrer.lhe o corpo abraçá.lo sofregá.lo .acha.se única naquele contacto tão íntimo .arrepia.se e lembra o primeiro orgasmo
ele desce a ravina e mergulha na água depois de deixar a roupa junto à árvore maior .havia escrito no velho tronco retorcido o nome deles e no momento antes do salto decorre a cerimónia protocolar da leitura das palavras nomes .entra nela

a água acolhe.o antes de bater na fraga .a mesma água que a encosta deixa aberta ao caminho .não sabe que futuro existe para aquele banho mar em chão de areia feito lagoa em cachoeira de água doce .levado pelo barulho o mundo deixa de existir em derredor .só ele e a água .o absurdo da existência humana partilhada a dois
ela mergulha de novo e basta.lhe sentir a cara molhada para esconder um sorriso contagiante .é um segredo muito seu .não .partilhado com a água .sempre a água
presente desde menino no útero materno .sabe.se infante ao encontro do ser perfeito .entra sai mergulha e sobe à tona para voltar a mergulhar .sempre .o absurdo da sua existência no contacto com a água .amante ausente presente

ela o receptáculo .ele o falo

os dois que se perdem quando se entregam .estão juntos naquele jogo em que a água há sido o pronome pessoal ou a primeira palavra de um verbo a conjugar a dois .no princípio era o verbo .há um brilho muito especial no olhar .no seu olhar .a mar .o mar .a água .amor .a palavra com que selam o compromisso

água .um dos elementos .os demais virão por acréscimo
ela sabe que há muito deixaram de ser importantes .deseja tão só retomar o gozo inicial e perder.se no mesmo compromisso assumido um dia com a palavra .não hesita em precipitar.se na fantasia de uma nova aventura .antes porém sublima a palavra [ao escrever]
FIM

ano VI - carta a um amigo ( ou algumas reflexões em princípio de ano )

Caríssimo José!

Costuma-se dizer ano novo, vida nova. É um verdadeiro lugar comum e como tal, merece-me pouca importância ou mesmo nenhuma, atendendo ao facto de não gostar de lugares comuns. Mas, não são os meus gostos pessoais que pautarão esta crónica de princípio de ano, mas, antes, algumas reflexões que tenho vindo a fazer ao longo dos tempos, e, muito particularmente, no último mês. Faço-o, geralmente, em fim de ano, como balanço do feito, pensado e querido ao longo do mesmo.
Observo, no que aos partidos políticos respeita, um afastamento cada vez maior das pessoas perante os mesmos. Várias são as razões que podem explicá-lo, desde um desinteresse cada vez maior da “res publica”, a consciência da inevitabililidade – tão presente no nosso pensar colectivo - , o deixar correr, o desacreditar cada vez maior nos nossos políticos, o desencanto, a necessidade de chegar cada vez mais fundo, para então sim, tentar novas políticas e novos rumos. A partir do momento em que, cada um de nós interiorizou o estar em sociedade e o viver em democracia participativa, diluiu-se o papel do Eleito e do Eleitor – prática contraditória – que pouco agrada aos militantes dos diversos partidos políticos.
Só que a militância não se faz ( ou não deve ser feita ) com amargura, mesmo quando os agentes têm razão, porque a mesma acarreta, para quem tem a consciência tranquila… e alguém terá?, afastamento em vez de aproximação.
Além disso, caríssimo, tenho consciência, em função da minha experiência ( e não só!!! ) do muito que alguns têm dado em prol do social, sem nunca terem pedido nada em troca – os verdadeiros idealistas – que na presença dos oportunismos e dos pessoalismos exacerbados que vão presenciando, diariamente, se distanciam, quais observadores dum mundo em decadência. Que é feito de todas as mulheres e homens deste Concelho que, sem ambições de poder, ao mesmo têm dedicado, através dos partidos políticos onde militam, a sua experiência e saber? Conscientes da presente evolução da democracia (?), afastaram-se, porque as suas ambições, perante o desalento, passaram a ser outras. Tornaram-se mais individualistas, mais expectantes, exigindo aos mais novos o que os mais velhos não souberam demonstrar ou fazer.
Assim sendo, julgo, por tudo isto, que outros, e não os actuais agentes políticos, mais novos, em termos de idade, envolvência política e militância partidária, deverão ser os novos protagonistas das políticas, sobretudo, as autárquicas. Quero vê-los dando provas, em domínios que, esses sim, podem decidir e decidirão o futuro do Concelho, mormente, o domínio da saúde – onde nada vejo de novo, apesar da muita prosápia – o domínio da habitação social – onde estão os cérebros? – na área da segurança social – não há crâneos para tais abordagens? – a educação – então, meus amigos?.
A cultura, essa filha pródiga, como nunca deu, nem dará votos, sempre foi vista e continuará, lamentavelmente, como a parente pobre, na qual não vale a pena investir, como se a mesma, a par da educação, não fosse o barómetro da sociedade.
Mas, prosseguir com este desabafo, meu amigo, levar-nos-ia muito longe, e, tu, como eu, sabe-lo…….
Assim, prefiro manter-me, onde sempre estive, na reserva, sem dramas e sem ressentimentos. E, agora mais do que nunca quero fazê-lo, porque, segundo vejo, ouço dizer e leio, há novidades que se avizinham, nos tempos mais próximos, para o Concelho de Silves.
Fico-me, então, pela expectativa e aguardo-as, sem ironia.
E tu, meu Amigo, qual o teu papel neste desenrolar da História sem história?
Aguardo a tua resposta,
com a amizade e a sinceridade de sempre,

Silves, Janeiro de 2008,
gabriela rocha martins.

ano V - Uma Utopia Possível – 2ª Parte

“A Política faz-se pela positiva, não por contradição”
Foi com esta frase que terminei a 1ª parte da minha anterior crónica. É com ela que inicio a segunda, porque, em meu entender, a política impõe uma séria reflexão introspectiva e actual sobre a comunidade em que estamos inseridos. Reflexão que, como um dia escrevi, deve ser acompanhada de um profundo exame de consciência, sem concessões para todos aqueles que, quais Velhos do Restelo, e, com várias metástases, tentam deturpar a verdade dos factos, lançando o anátema sobre essa mesma comunidade.
Essa reflexão é tanto mais necessária quanto a nossa comunidade continua adiada, marginalizada e minimizada.
É legítimo, em democracia, que as Pessoas tenham ou façam as suas opções políticas. Como é legítimo o contrário.
Todavia, qualquer posição que seja tomada, deverá sê-lo, em consciência, e não como factor de poder ou contra-poder. Isto é: nos verdadeiros democratas, as opções fundamentam-se em princípios interiorizados, em que o “servir a causa pública” é, sempre, um acto político, quer o queiramos ou não. Não há isenção nos seres activos, porque agir pressupõe “tomar posição em relação a”, e, esta é, igualmente, uma forma de poder. Sendo este um factor determinante do estar em sociedade, não pode, nem deve sustentar-se em questões de índole pessoal, mesmo quando camufladas no “bem servir a comunidade”, porque o “ser em comunidade” exige o respeito pelo outro, ou seja, o respeito à diferença. Outrossim, este respeito pressupõe o estar sempre ausente, no não agente, o estar sempre presente, no agente.
Há que afastar os fantasmas, consequências inevitáveis do ser em comunidade, porque não são as nossas empatias que galvanizam as sociedades, saturadas até à medula, nas certezas dos HOMENS SÓS.
E neste capítulo, a Comunicação Social – escrita e falada – tem um papel preponderante.
Não para os que vivem os acontecimentos ou neles se envolvem, porque, facilmente, detectam a inveracidade dos factos, a subjectividade das crónicas, a informação tendenciosa.
Todos nós temos consciência da falibilidade informativa.
Mas, se tomar posições é natural, o mesmo não acontece quando não assumidas com frontalidade e verticalidade, mas antes, camufladas pelos imperativos de momento, à volta de interesses pessoais presentes, passados ou futuros.
Urge assumir, sem diletantismos, uma perspectiva racional, porque os tempos das “paixões” são fugazes como a própria paixão.
Urge assumir uma perspectiva englobante, essencialmente construtiva, em prol do Humanismo, da Solidariedade, da Justiça e da Cultura, porque só em diálogo, transparência e tolerância, é possível renovar as sociedades.
Somos Mulheres e Homens, com os defeitos e as qualidades do género, mas também com a fragilidade humana de nos sabermos emocionar. Todavia, confundir emoção com prepotência, é não ser capaz ou não querer ultrapassar a própria incapacidade.
Urge assumir as diferenças. É o princípio da não contradição.
Assim, deambulando pensamentos ou cogitando sobre o nosso passado recente, chego, invariavelmente, à mesma conclusão – as nossas esperanças como poetas ou não-poetas, sonhadores ou “homens práticos”, ascéticos, agentes ou ausentes, não ganharão consistência, primo, enquanto não racionalizadas e interiorizadas, secundo, quando não colocadas, sem dissimulados protagonismos, ao serviço do bem comum.
Só assim nos afirmamos como seres individuais e sociais.
Em suma, numa comunidade falha de verdadeiros substractos humanistas, há que acreditar numa Utopia possível, porque mudar é renovar e renovar é construir o futuro.

ano V - Uma Utopia Possível – 1ª Parte

Deambulando pensamentos ou, simplesmente, cogitando, chego sempre à mesma conclusão – A Humanidade divide-se em poetas e não-poetas.
No primeiro grupo há aqueles que nunca escreveram um verso. No segundo, há não só quem os tenha escrito, como também publicado.
Ser poeta, porém, não se circunscreve ao escrevinhador/escritor, citando Sartre, mas antes à enorme capacidade de reinventar a utopia, em tornar viável o inexequível. É a ascese.
A afirmação do indivíduo como ser uno, inserido, todavia, no social a que pertence, por nascimento ou adopção.
“Ninguém morre sozinho”, escreveu, um dia, o Professor Daniel Sampaio. Parafraseando-o, direi que, em cidadania, ninguém “vive” sozinho, porque o UM não é mais do que a minúscula parte do TODO, e, o todo somos nós, poetas, sonhadores, “homens práticos”, ascéticos, agentes activos e passivos.
Em suma, a Comunidade possível.
Mas as nossas esperanças como seres não ganharão consistência se não forem alicerçadas na busca da simbiose entre o ser pensante e o ser agente, balizadas nos valores civilizacionais mais profundos e na modernidade mais actualizada, hoje, falhos de verdadeiros substractos sociais, culturais e políticos.
Políticos, porque a carência dos mesmos fez com que todos nós tivéssemos mergulhado, pouco a pouco, nos vícios atávicos do passivismo, por um lado, ou na intolerância e na pequenez cultural, geradoras do diletantismo que subestima os cidadãos que não se reconhecem na partidocracia, por outro.
A memória é curta, diz o velho aforismo popular.
E, como a memória dos homens tem tendência a repetir-se, exige a moderna consciência que saibamos aprender, todos, mesmo os de fraca memória, de modo a não permitir, no presente e no futuro, que o autoritarismo ( camuflado ou não ) de esquerda, de centro ou de direita, domine, perversamente, o nosso dia a dia, enfraquecendo a capacidade criadora de todos nós.
É fundamental que a cooperação e o diálogo prevaleçam, dignificando o HOMEM, ser uno e social, não o marginalizando, porque fazê-lo é uma visão maniqueísta que acentua as já perturbadoras assimetrias económicas, culturais e educacionais.
São as Pessoas, os únicos protagonistas das reformas e reestruturações, e, deverão ser eles, numa perspectiva humanista, os principais agentes das mesmas.
Em cidadania não há filhos adoptados.
Acentuar a diferença entre “nascidos” e adoptados é um conceito xenófobo que, mais não faz, do que preceituar a exclusão, por ironia, receio ou despeito?
A democracia exige que o Homem se torne no centro das relações sociais crescentes em número, amplidão e qualificação. Oferecer à liberdade humana novas possibilidades, manifesta o devir e o dever-ser dessa mesma liberdade, o que equivale a dizer que só resulta, através e com o homem, ser uno e plural.
A política faz-se pela positiva, não por contradição. Muito menos com medo, mentiras ou falsas verdades.
Tentar minimizar o Homem, ou coarctar-lhe a criatividade, são conceitos mesquinhos que só se equiparam à mesquinhez de quem assim age.

ano V - Ser ou Não Ser, eis a questão!

Aproveitei o meu período de férias, entre outras coisas, para colocar em dia as minhas leituras. Li novos livros, mas, sobretudo, reli alguns, cuja presença me é necessária quase como o comer.
É o caso de Hamlet.
Porquê, Hamlet? Quem é, de facto, Hamlet?
Quem tem a sorte da nascer personagem viva, pode troçar da própria morte, porque não morre nunca! Pode morrer o homem, o escritor, o instrumento de criação, mas a sua criatura, essa nunca morre! E para viver eternamente nem sequer precisa de ter dotes invulgares ou de obter prodígios. Quem era Sancho Pança? Quem era D. Quixote? E, no entanto, estão vivos para sempre porque tiveram a sorte de encontrar uma fantasia que os soube criar, insuflar-lhes vida para toda a eternidade!” – escreveu Luís Francisco Rebello.
É assim que o personagem de Hamlet sobrevive ao seu próprio criador, que ao certo não sabemos se era William Shakespeare, filho de um magistrado municipal, cujo baptismo foi registado na igreja paroquial de Stratford, com a data de 26 de Abril de 1564, ou se outro que escreveu, sob o mesmo nome, uma trintena de comédias, tragédias e tragicomédias que, para uns, são um dos mais altos vértices do génio humano, e, para outros, o produto monstruoso de um bárbaro.
Quem quer que tenha sido o criador de Hamlet, do que não restam dúvidas é que o príncipe transpôs, sem envelhecer, quatrocentos séculos.
Mas, Hamlet não é o único a ser eterno.
Com ele, são-no Antígona e Electra; Inês Pereira, D. Quixote e D. Juan; Hedda Gabler, o tio Vânia, Bernarda Alba, a Mãe Coragem e quantas e quantos, cujos nomes se nos tornaram familiares, assim como os rostos, os actos, os gestos, e, as palavras que dizem…
Com Hamlet, porém, as coisas não se passam, exactamente, da mesma maneira. Conhecemo-lo tal como os outros, julgamos conhecê-lo, mas, no entanto, cada vez que o encontramos, ele surpreende-nos, porque nos surge sempre diferente, ainda que as suas palavras e os seus gestos sejam os mesmos. Porque Hamlet não é uma máscara aplicada num rosto, mas um rosto que a cada instante muda de máscara. É um espelho onde um rosto se multiplica em infinitas imagens, onde se reflectem as suas diferentes máscaras. E aí, quer queiramos quer não, Hamlet é o espelho de cada um de nós…
Todos nos julgamos apenas um, quando, afinal, somos tantos quantas as nossas máscaras. E Hamlet é a ilustração exemplar deste drama. Drama porque o próprio espírito do príncipe não se vê uno, mas dividido e contraditório. Dividido entre o pensamento e a acção. Entre a dúvida e a certeza. Entre o amor e o ódio. Entre o bem e o mal. Entre a razão e a loucura. Entre o ser e o não ser – e, no entanto, sempre ele.
Da sua personalidade se tem dito que é ambígua, incoerente, indefinida, enigmática. Com efeito, ao longo das várias cenas da tragédia, Hamlet mostra-se crédulo e céptico, generoso e cruel, audaz e tímido, calmo e impetuoso, cortesão e grosseiro, ingénuo e cínico, justiceiro e vingativo, voluntarioso e “adormecido”.
E é, por tudo isto, que Hamlet se nos apresenta, inesgotavelmente, rico e humano.
Na 2ª Cena do 2º Acto, Shakespeare precisa que Hamlet deverá entrar em cena a ler. Então, que livro lerá o príncipe? É difícil responder, porque qualquer obra serve e variará conforme o sabor dos tempos.
Assim, teremos um príncipe da Renascença ou um herói romântico, um racionalista ou um sonhador, um místico ou um revolucionário, um jovem torturado pelo complexo de Édipo, um intelectual neurótico, um antigo estudante que leu António Nobre sentado a uma mesa da Brasileira, ou que esteve nas barricadas de Maio de 68. Todos estes Hamlets cabem no Hamlet de Shakespeare, e, por isso podemos dizer que ele é todo o mundo e ninguém.
Quem é, de facto, este Hamlet, ou esta tragédia que há quatro séculos se representa em todos os teatros do mundo e que constitui, para um actor, a mais exigente e conclusiva prova de exame? Um drama filosófico, um drama político, um drama existencial, um drama metafísico sobre a condição humana, um drama absurdo, um psicodrama? – basta lembrar a cena da representação destinada a servir de armadilha ao rei e os conselhos dados por Hamlet aos actores que para esse fim contratou – e, com certeza, não ficam esgotadas todas as hipóteses.
Hamlet, quando a máquina infernal do destino se põe em movimento e a tragédia se aproxima do fim, duvida de si próprio, vê-se como os outros o vêem, deixa de ser ele para ser, aos seus olhos, ninguém. Se o consideram louco é porque é louco, mesmo que finja não sê-lo. A loucura pode ser uma das muitas máscaras aplicadas no seu rosto, mas para os outros, a partir de então, ele é, verdadeiramente, louco.
Não é por mero acaso que Shakespeare o põe a falar de si próprio na 3ª pessoa, como se ele não fosse ele, mas o outro que os outros vêem nele.
Morre levando consigo o segredo da sua enigmática personalidade.
Loucura verdadeira ou loucura simulada?
Eis a questão: ser ou não ser!
Eu sou para os outros aquilo que me julgam ser, e para mim não sou ninguém. O resto é silêncio” – são as derradeiras palavras do príncipe no momento de agonia.
Sábias palavras estas. Palavras que, talvez, só um louco pudesse pronunciar…

ano V - pergunta pertinente

De facto, há qualquer coisa podre sobre a maquilhagem, qualquer coisa fétida sob a organização social mais brilhante, qualquer fenda onde se insinua e desenvolve a semente que fará com que tudo desabe.
Eterna meditação sobre a queda dos impérios, o fim dos homens e sobre a poeira da História”.


- Marguerite Yourcenar.

Tendo presente a citação de Yourcenar, que, particularmente, admiramos, e, face aos diversíssimos aspectos contraditórios da vida portuguesa, ousamos questionar - afinal, qual o papel de cada um de nós na sociedade?
Nenhum – respondem os descrentes!
Como não aceitamos tal premissa, congeminamos em voz alta…

Cabe ( dizem-nos! ) aos Politécnicos, excelente montagem do POLÍTICO-TÉCNICO, agir, arbitrariamente, em nome do colectivo. É o pressuposto da representatividade. E o terrível é que há sempre uma desculpa – a de que a sua actuação é feita em nome de princípios, regras e valores comunitários.
Esquecem-se, porém, que a Cidadania vive sempre noutro lugar, no quotidiano de todos nós, longe dos espectáculos e das exibições.
Alimentar a ideia de que todos os fenómenos políticos têm de subordinar-se ao espectacular e às leis do mercado, traduz, inequivocamente, o empobrecimento da comunidade em que vivemos e impede o nascimento de ideias e a concretização de acções que permanecem.
E mais…
Face a uma geração sedenta de eternidade e de poder, essa mesma comunidade reage, tornando-se mais frívola, e, isto porque há cegos demasiado habituados a sê-lo. São as relíquias de uma época, a quem cabe a ingrata missão de prestar contas aos vindouros.
Há, porém, quem tenha afirmado, sem protagonismo político, ser tempo de dizer – BASTA!
E ousaram fazê-lo, reflectindo, construtivamente, sobre o passado presente, a fim de projectar o futuro, dignificando o presente como parte integrante de algo que se desenrola do interior para o exterior. Sem exibicionismos.
Paulatinamente, assumidos nas palavras de António Sérgio:
“Meu Caro Amigo: continuemos a palestrar como dois bons amigos – sem nenhum finca-pé, sem paixão alguma, sem ceder ao furor de denunciar culpados. Criadoramente. Generosamente. Construtivamente.
Não desviemos os olhos do que realmente importa: o que chamo as “pedras vivas” do “país real”; e busquemos os remédios da actuação directa, cujo processo se nos apresente de maneira simples, clara, facilmente compreensível ao comum dos homens.
Pela qualidade dos frutos se julgará da árvore; assim se diz no Evangelho.
Então,
porque frutos julgaremos a tua orientação governativa, a tua presumível construção política?”

ano V - Novas reflexões sobre DEMOCRACIA E LIBERDADE

Desde sempre que o homem tem procurado entender o mundo que o envolve e compreender-se a si mesmo, através da inteligência.
Todavia, o mundo não é ,apenas o que se vê e o que se deseja.
É algo de muito profundo, traduzido em actos e factos, perecíveis no tempo e que, mais cedo ou mais tarde, nele se apagam e reacendem.
É um processo também de memória, quando o preço da incompreensão se reveste numa agressiva, se bem que controlada, desilusão.
A angústia como dividendo da Utopia
– escrevi, há algum tempo atrás, nas páginas deste Jornal.
Regresso ao mesmo tema, dada a sua oportunidade, e, sobretudo, a minha estupefacção face ao jogo das máscaras que alguns representam ( mais ou menos bem, muito embora julguem o contrário ) no tabuleiro da vida.
Hoje, em que o destino de cada um de nós se encontra, cada vez mais, comprometido pelas opções políticas, o estar em sociedade só se justifica através da adesão a essa mesma sociedade. Mas, se esta adesão não tiver sido subordinada, previamente, a imperativos fundamentais que, para cada um, encerram uma série de interrogações, quer no plano ético das representações, quer no plano material das necessidades, o estar em sociedade, repito, não tem qualquer sentido…
E quais são os factores que condicionam esses imperativos? Como os interpretam os homens? Quais as suas mutações históricas? - são ,apenas, algumas das questões que, na contemporaneidade, reflectem a noção de democracia, o que não acontecia outrora.
Rousseau, por exemplo, só conhecia a perfeita democracia entre um povo de deuses.
Há, todavia, que renunciar a esta perfeição ideal, já que, na viva experiência hodierna, “ela perdeu a serenidade de traços com que a enobreciam os filósofos do séc. XVIII, quando não era, senão, uma belíssima estátua num templo deserto. Se, por vezes, a semelhança nos choca, não é apenas a nós que nos devemos incriminar?”
Democracia pressupõe liberdade e é, antes de mais, um sistema que inclui a liberdade na conexão política. Pressupõe, ainda, autoridade, mas estruturada e fundamentada na adesão do social, mantendo-se compatível com a liberdade do mesmo.
A Declaração dos Direitos de 1789-91 dispõe que “os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos”, o que demonstra a transcendência da liberdade e a obrigação das instituições políticas a ela se submeterem.
Não basta, porém, associar o princípio democrático à liberdade humana para tomar consciência do significado presente da democracia.
Liberdade equivale a autonomia que se traduz na ausência de coacção e no sentimento de independência, física e intelectual.
Nasce, deste modo, uma nova concepção de liberdade e democracia a que poderemos chamar de participação ( liberdade participativa/democracia participada ) e que consiste em associar o indivíduo, como ser social, ao exercício do poder, defendendo-o das arbitrariedades e do abuso e/ou prepotência desse mesmo poder.
Mas, liberdade e democracia pressupõem, também, e, antes do mais, responsabilidade.
Todavia, “que importa que o homem seja livre de pensar se a expressão da sua opinião o expõe ao ostracismo e à perseguição? Que seja livre de discutir as condições do seu trabalho se a sua situação económica o obriga a curvar-se à lei do empregador? Que seja aspirante ao desenvolvimento da sua personalidade cultural se esta lhe falta como mínimo vital? – escreveu Georges Bordeau.
Hoje, tudo se passa numa subordinação, passiva e irreflectida, à vontade política que, por seu lado, se vê confrontada com um processo ireversível de dupla “morte” – de preversão de memórias e de ideais.
Destarte, torna-se urgente recriar a sociedade livre e democrática que alvitramos e defrontar o AMANHÃ, sem medo, demagogias e falsas esperanças, mas com a consciência de que é, hoje, no presente e em cada momento da nossa vida, que vale a pena fruir a herança cultural de que somos herdeiros.